Ário (ou Arius) é uma figura central e polêmica do cristianismo na virada do século III para o IV depois de Cristo. Não se sabe exatamente a data nem o local em que esse sacerdote norte-africano nasceu. Especula-se que possa ter nascido na Líbia entre o ano 250 e 260 d. C. e há uma pequena evidência de que tenha sido aluno de Luciano de Antioquia (c.235-312), através do qual teria recebido influências da teologia de Paulo de Samosata (c. 200-275). Essa evidência é a palavra sulloukianista (“discípulo de Loukiano”) que aparece numa carta de Ário se referindo a si mesmo ao se dirigir a Eusébio de Nicomédia em busca de apoio nos primeiros anos da controvérsia que levaria seu nome.

Ao que tudo indica, Paulo de Samosata cria que Jesus tinha nascido humano e – de alguma maneira transcendental – Deus Pai tinha, digamos, “infundido” divindade nEle durante sua existência carnal, numa versão muito particular de adocionismo, que era uma tentativa humana, marginal na Igreja, de se explicar a presença e a correlação entre as naturezas humana e divina de Jesus Cristo, e que não foi aceita pela ampla maioria ortodoxa do cristianismo que considerava a doutrina tão estapafúrdia que nem se deu ao trabalho de refutá-la de maneira séria e fundamentada.

Foi nesta atmosfera conflagrada por oxigênio puro e gases teológicos tóxicos que Ário formou as suas convicções sobre o cristianismo. Não só ele, diga-se de passagem, mas a igreja como um todo. A nova religião cristã via o nascimento do dogma:

A palavra “dogma” vem, através do latim, da palavra dogma, que derivou do verbo dokeo. Essa palavra significa pensar. Os dogmas ou doutrinas formuladas nesse período foram o resultado de pensamento e pesquisa demorados por parte dos cristãos no afã de interpretarem corretamente o significado da Bíblia nas questões disputadas e de evitar as opiniões errôneas.

O período é ainda uma boa ilustração de como um forte zelo pela doutrina pode levar uma pessoa ou uma igreja involuntariamente ao erro, se não se fizer um estudo equilibrado da Bíblia. Assim como Sabélio chegou a negar a Trindade essencial ao tentar salvaguardar a unidade de Deus, Ário descambou para uma interpretação antibíblica do relacionamento de Cristo com o Pai em sua tentativa de evitar aquilo que ele considerava o perigo do politeísmo.

Tudo indica que isso aconteceu sob o episcopado de Áquila, sucessor de Pedro, que governou a igreja de Alexandria por um curto período entre 311 e 312, período em que, segundo as fontes mais confiáveis (mas sem absoluta certeza), Áquila teria ordenado Ário ao sacerdócio, razão pela qual foi tido muitas vezes (e com pouca dose de razão) como um ariano precoce. Antes de falecer em 312, Áquila havia convocado um concílio para 313, exatamente com o fim de resolver as pendências teológicas que lhe eram confrontadas de um lado por Melício (ainda vivo e forte), e de outro lado por Ário. São misteriosas, portanto, as razões pelas quais Áquila ordenou sacerdote uma pessoa que, uma vez investida do cargo, começaria imediatamente a lhe criar problemas, daí as dúvidas que pairam até hoje sobre suas reais intenções, se arianas ou não. Como facilmente se percebe, essa não era uma época propícia a grandes discussões teológicas e filosóficas, mas Ário já estava prestes a se tornar conhecido como o maior herege da história da Igreja primitiva:

Por volta do ano 320, Ário era o pastor da igreja de Baukalis (ou Baucale), uma igreja importante em Alexandria, na qual era muito respeitado e já vinha desenvolvendo havia alguns anos as suas teorias exóticas sobre a Encarnação do Verbo. De acordo com fontes posteriores não tão confiáveis, haveria uma espécie de convento anexo à igreja, com cerca de 70 freiras, mas esse é um dado digno de nota mais pela curiosidade e pela sugestão implícita de maldade, já que também o descrevia como um homem alto e esguio, que gostava de se vestir bem, vaidoso portanto, um dândi de Alexandria segundo a tradição posterior que não fez esforço algum em evitar que ele fosse ridicularizado e difamado (talvez com razão). De qualquer maneira, Ário se torna um presbítero popular em Alexandria, seja pela sua jovialidade, seja pela pregação de suas ideias revolucionárias. 

Importante frisar que a base da controvérsia que se seguiu estava fundada na doutrina da Trindade estabelecida por Orígenes (185-253), também em Alexandria, pela qual ele declarou que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, ainda numa formulação incipiente, mas profundamente importante, da relação entre as Três Pessoas da Unidade Divina, que seria mais tarde aperfeiçoada por Tertuliano e pelos pais capadócios, entre tantos outros que colaboraram nesse processo. Para Orígenes, o Filho é co-eterno e tão divino quanto o Pai, divino “conforme a essência” e não “por meio de participação” nem por “emanação” de Um em relação ao Outro. Nesta visão, o Espírito Santo procede do Pai e é co-eterno e tão divino quanto Pai e Filho. Alexandre, então patriarca de Alexandria, era um origenista radical e Ário não se conformava com essa idéia.

A controversa doutrina do arianismo

O ponto de partida do arianismo é um monoteísmo absoluto, de modo que o Filho não pode ser uma emanação do Pai, ou uma parte de sua substância, ou um outro ser semelhante ao Pai, pois qualquer dessas possibilidades ou negaria a unidade ou a natureza imaterial de Deus. O Filho não pode existir sem um começo, pois dessa forma seria um “irmão” do Pai, e não um Filho. Por isso, o Filho tem um começo, e foi criado ou feito pelo Pai do nada. Antes de tal criação, o Filho não existia; é, portanto, incorreto afirmar que Deus é eternamente Pai. Isso não significa, contudo, que não existiu sempre um Verbo em Deus, uma razão imanente; mas este Verbo ou razão de Deus é diferente do Filho, que foi criado mais tarde. Portanto, quando alguém diz que o Filho é a Sabedoria ou o Verbo de Deus, isto está correto apenas com base na distinção entre o Verbo que sempre existiu, como a razão de Deus, e aquele outro Verbo que é “o primogênito de toda a criatura”. Embora todas as coisas tenham sido criadas por ele, ele próprio foi feito pelo Pai e é, portanto, uma criatura, e não Deus no sentido estrito da palavra.

Uma outra interpretação vê Ário e seus seguidores como defensores de um conceito de salvação que, na opinião deles, estava sendo ameaçado por Alexandre e seus colaboradores. De acordo com esta interpretação, Ário e seus “companheiros lucianistas” estavam preocupados em enfatizar a verdadeira humanidade de Jesus. Sua divindade deveria ser expressa, não em termos de substância, mas em termos de vontade – isto é, em termos suscetíveis de imitação e repetição pelos fiéis.

A partir dessa perspectiva, a principal preocupação de Ário era explicar o salvador em termos tais que o tornassem possível de ser imitado. Para Ário, era importante que a filiação de Cristo fosse por adoção, de modo que pudéssemos segui-lo e, assim, fôssemos igualmente adotados.

Assim, “o modelo central ariano foi o de uma criatura perfeita, cuja natureza permanecesse sempre humana e cuja posição estivesse sempre subordinada e dependente da vontade do Pai”. Embora seja muito difícil aplicar esta interpretação ao arianismo de tempos posteriores, parece que na essência do arianismo primitivo está a mesma preocupação de salvaguardar a humanidade do salvador que foi anteriormente manifestada por Paulo de Samosata. Isto também explicaria porque desde os tempos mais antigos o arianismo foi interpretado como a continuação dos ensinos e preocupações de Paulo de Samosata. Além disso, se interpretarmos o arianismo primitivo não como uma especulação sobre a Divindade, mas antes como sendo proveniente de um entendimento particular da obra de Cristo, podemos começar a entender o apelo que o arianismo teve sobre as massas em Alexandria – apelo normalmente explicado como resultante meramente da popularidade pessoal de Ário.

Tudo isso implicava em pelo menos 4 pontos essenciais para se compreender as doutrinas do arianismo:

1) Deus Pai é absolutamente único e transcendente, do qual não emana (ou se comunica) divindade alguma;

2) na condição de criatura, o Filho deve obrigatoriamente ter tido um começo;

3) o Filho não pode ter comunhão alguma de substância com o Pai; e

4) o Filho deve estar sujeito a mudanças e mesmo ao pecado. Um dos partidários de Ário teria sido, inclusive, surpreendido numa conferência quando lhe perguntaram se Jesus poderia ter caído junto com o diabo, o que ele foi obrigado a concordar, já que essa era uma conseqüência lógica do ensino de Ário.

Ficam claras, portanto, as razões pelas quais Alexandre não podia tolerar um desafio desse tipo dentro de suas fileiras alexandrinas. Ário tinha, contudo, um poder de sedução enorme sobre as platéias ignaras e isto gerou profunda comoção em Alexandria, em que a polêmica, guardadas as devidas proporções, tomou o vulto de uma briga de torcidas. Ário liderava passeatas pela cidade cantando “Houve um tempo quando ele não era”, referindo-se a Jesus, o Verbo encarnado. Diante da provocação, Alexandre convocou um sínodo de bispos do Egito, que se realizou no ano de 319 (ou 320, segundo outras versões) e ao qual acorreram 100 prelados da região, que resultou na condenação e excomunhão de Ário. Este, entretanto, não desistiu. Buscou apoio em bispos de outras regiões, e o influente Eusébio de Nicomédia foi o que lhe deu abrigo. O outro Eusébio, o historiador de Cesareia, também lhe deu certo suporte, mas se colocava numa opinião intermediária entre Ário e Alexandre, embora sem desenvolvê-la a ponto de que soubéssemos hoje exatamente o que ele pensava a respeito.

Notas:
Justo L. González, op. cit., p. 212, 214, 256-258,
J. N. D. Kelly, op. cit., pp. 172-173

Fonte: e-cristianismo

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